Naquele espaço escuroonde vivia a confusão da sua mente
estava ele sentado, de cabelos em pé e rosto fechado.
Olhava intrigado os livros empoeirados sobre a secretária
parcialmente iluminada pelo velho candeeiro.
Descia dele a aranha de sempre no
fino fio de sempre da sua teia emaranhada.
Tão emaranhada como os pensamentos
do cansado bibliotecário.
Decidido, levanta-se bruscamente e empurra
a pesada escada pelo imenso corredor
definido pelas estantes existentes
desde longínquos séculos.
- Vou catalogá-los a todos!
(Resmungava convencido!)
Subiu a escada até à última
secção da estante, pegou num livro
e soprou dele o pó deixado pelo tempo.
Olhando-o suspirou…
(…)
Por instantes, pareceu-lhe simples
etiquetar a amizade depois do amor e
deixar o ódio no final da prateleira.
Mas depois pensou:
- Haverá amizade que não ame e
amor que amigo não se torne?
Hummm!!!...
As longas horas tornaram-se fugazes
e a alvorada trouxe, enfim, os primeiros raios de luz
que atravessaram o antigo vitral
e iluminaram o fundo da biblioteca.
Com um olhar desiludido,
lá estava ele, o bibliotecário,
sentado no chão com a etiqueta "A" ainda na mão.
Ao seu lado, um amontoado de livros.
Desabafou:
- Guardada no futuro, talvez esteja a noite,
de tal forma clara, que me permita
sentir a lucidez capaz de pegar na razão
e organizar os sentimentos!
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(Imagem da autoria de: Rui Brito)
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