domingo, 21 de junho de 2009

Aljôfar

Elas são redondas,
da cor do nada e salgadas.
De cristal, elas são, e caem
sem parar pela
cascata do sentimento.
O acto isolado da sensação
elabora no peito a torção
de um coração fraco.
Ele já não bate mais. Apenas trabalha
sem sentir. Tem medo de ser!
Apesar da música ser linda e
sentir saudade dos sentimentos,
ela quer morrer… dilacerar o ventre,
sofrer de tortura primitiva.
Apertar o corpo com força de rebentar,
arranhar a pele com empenho de rasgar.
Ela é triste, não pensa mais em si…
não deixa brilho solto nos cabelos,
nem sorriso doce no olhar.
Ela está descontrolada, sem sentimentos de calmaria.
Ela sente desespero, solidão, tristeza e incompreensão!

Desiste… não quer mais falar!
.
(Autor da fotografia: ABrito)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Verde apagado

E mesmo sem nada prever,
os lagos de ervas reflectidas
transbordam pelas margens,
numa chuva tempestuosa,
os sentimentos desinquietos
daquela aldeia perdida.

Os habitantes dessas terras
moribundas, se desnorteiam
nas teias emaranhadas
dos pensamentos 'devaneantes'.

Que loucura! Que loucura é
viver nas profundezas,
desses lagos de ervas reflectidas
e, nas águas agitadas a
cada tic tac infernal!

Pára o tempo. Apazigua as águas.
Repõe as margens. Limpa os lagos…
Afasta o cinza e…
deixa o verde radiar!
.
(Autor da fotografia: Ricardo Costa)

terça-feira, 19 de maio de 2009

E é quando a vida se acaba…

- Sabes… estive a sonhar e…
- Espera só um bocadinho, pode ser?
- Sim! :D


Ela esperou… esperou!
Esperou demais e nem viu
o tempo a acabar!

Depois do sol raiar.
Depois da lua nascer.
Depois da sereia cantar.
Depois do perfume se perder.

- Mas eu preciso…
- Depois!


Depois da chuva cair.
Depois das estrelas brilharem.
Depois da criança sorrir.
Depois das flores murcharem.

- Mas eu queria…
- Depois!


Depois da música ecoar.
Depois do segredo ser esquecido.
Depois da brisa soprar.
Depois do caminho ser percorrido.

- Mas eu gostava…
- Depois!


Ela percebeu, então,
que apenas depois de tudo,
estaria ela!

- Então… :o) o que querias dizer?

Uma lágrima no rosto disse tudo
sem nada dizer.

- Depois de tudo, estou eu.
Sim! Mas agora sem mim…
sem essência ou conteúdo.
Sem razão para dizer…

E desabafou:
- Depois… “pode ser”?
.
(fotografia retirada do site: olhares.aeiou.pt - autor: Point of view)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Veneno colorido

Queria encontrar as palavras certas
para (te) escrever, e a adjectivação perfeita
para (te) exprimir as exactas emoções…
mas nada sai certo, nem o acto de respirar.
O silêncio parece ensurdecedor
e todas as visões assustadoras.
O toque é sempre frio
e o olhar, cada vez mais, gelado!
(Conseguisse eu explicar-te!!!)
Parece perpétuo este sentimento,
esta fúria e desejo de não sentir…
tudo parece tão irreal!
A luz ainda está no céu…
não posso, por isso, deixar a chuva
do meu corpo cair! E engulo as areias
deste meu deserto tão gélido!
(Já não sei mais falar-te!!!)
Mas… isto não acaba? O que faço?
Deixo o veneno? Ou deixo-me ir…
deixo-me envenenar?!

Ainda bem que gosto de maçãs!
.
(Autor da fotografia: Amanda)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Eterno adormecer

Peguei nela pela mão…
ela estava embebida de demência.
Os sentimentos eram cinzas e só o manto
coloria o leito no qual ia sucumbir.
Ela sabia que o seu corpo
já estava do avesso virado e o seu
mundo escrito ao contrário.
As luas do seu casulo estavam
rasgadas, de negro pintadas.

Olhei com pesar o corpo inerte
e chorei lágrimas cáusticas
que as mãos não conseguiram segurar.
Senti o meu corpo, como o dela,
abrirem traços lascados na pele
pintados de mágoa, de chorar.
Ela morreu, com sonhos
derramados pelo chão,
com desejos incumpridos e
ânsia de voar sobre as cores.
Ela não sente mais, as cordas
que amordaçavam a alma e os
golpes de tristeza cicatrizados nos pulsos.

Porém, o corpo hirto
tinha um sorriso nos lábios!

Mas… fica sempre um tudo, ainda mudo,
calado, com um algo eterno por dizer!
.
(Autor da fotografia: Angelica)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Sonhos de infância

Há velas que nunca se apagam
e ardem na alma como
cicatrizes tatuadas no corpo.
Há vontades em pura chama
que imploram pavio
num querer incontrolável de aquecer.
Há quereres, que de tanto querer
incendeiam o coração
num fogo impossível de apagar!

O lume sereno que
se acende na infância
e invade as entranhas,
sem respeitar fronteiras,
sem rumo ou razão, só quer arder!

O fogo incandescente da vela
ardente, sôfrega de cumprir
esses os sonhos de infância.
.
(Autor da fotografia: DDiarte)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Fantasmas

Ela voou, com vontade de
guerreira e asas de condor.
Devastou, o centro do campo verde e amarelo
com uma catana de fúria.
Desenhou, no chão repisado
um leito de morte e sacrifício.
Rodou a ampulheta e fez o tempo parar.
Começou o ritual mágico!
No lugar malfadado, devorou
o medo que movia a marioneta.
Deitou-os no chão
anestesiados de espuma e raiva no olhar,
pegou com respeito, em nome de tudo
que aprendera, nos braços desmaiados
e apertou, com força de infinito e
corda negra, os pulsos nas estacas
afiadas cravadas no chão.
Depois, os pés. E por requinte de gula,
todas as cabeças no final.
Cantou, estridente, para os acordar.
Riu ao respirar o desespero que
agora não lhe pertencia.
Amordaçados sentiram
a pele virar-se do avesso
arrancada por unhas vermelhas de ira.
Ouviu-os gritar de sofrimento
e sentiu-os desfalecer de dor.

Exausta, caiu no chão
fechou os olhos e viu,
o lago de sangue evaporar,
os seus medos desmaterializarem-se,
o verde e malmequeres erguerem-se
pelos contornos do seu corpo.

De pé, sentiu a brisa nos cabelos,
respirou liberdade e sorriu.

(autor da fotografia: Daniel Oliveira)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Simplicidade complexa

O amor é estranho.
Faz com que uma pessoa estranha,
alheia às nossas origens,
nos entre pelos poros, rasgados pela ânsia.
Passeie nas veias,
se reflicta no olhar, intrigado de sensações.
Habite a alma e
use o nosso coração. Sem permissão,
cheia de ousadia.
E tem o toque quente no corpo
incandescente de amar, suado de sentir!
No embaraço do sentimento,
entre os gestos sensuais, os cabelos molhados
e a lingerie graciosa pensada,
essa pessoa estranha deixa de ser estranha
e passa a pertencer-nos como
o ar que respiramos,
como o chão que percorremos,
como a beleza que admiramos!

E não podemos perder essa pessoa estranha,
que deixou se ser estranha porque
deixamos de saber ver e
ficamos cegos sem saber!

(Autor da fotografia: DDiArte)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Leva-o no abraço

Ela ama o que vê e não entende o que sente,
mas sabe que sente medo pela rapidez
a que passa o tempo… por não conseguir
deter a água nas mãos!
Translúcida. Cristal!

No diálogo com a Flor de Lótus,
que cruzou o seu caminho,
soube que não era a única!
"Ela também sente medo!" – pensou!
Cor de uma rosa. Clara!

Resolveu, então,
pela fugacidade que a alucina
pelo medo que a consome,
pela ânsia que a devora…
amar o que não é de ninguém,
mas que lhe pertence por direito!
Azul mar. Fresca!

Ela olha para ver
o feitiço das águas, a magia da terra,
o encanto do ar, a força do fogo!
O encantamento dos animais!
E dança, ousada, na lua.
Leve, solta, delicada!
Os cabelos, exibi-os o vento
soltando no ar uma fragrância, branca
de roupas, de movimento, de vento!
Cã. Pura nívea!

E com pés de bailarina e cor de baunilha,
desenhou ela, natural,
o seu mundo na areia da praia.
Soprou a poeira e ergueu no ar
a sua esfera de sol, mar e verde!
Olhou com brilho de porcelana fresca
os milagres triviais, e caminhou sorrindo
deixando-se esconder no conforto do calor!
Amarelo deserto. Quente!

Forte, pega-o pela mão, agarra-o junto
ao peito… e caminha levando
o seu mundo no abraço!
Multicolor!

(Autor da fotografia: Miguel Moura)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

(Des)esperança!

Que motivações se tem para adormecer
com sorrisos e acordar com lágrimas?
Que ventos sopram de norte e
gelam o fogo dos ingénuos?
Um cansaço fulminante usurpa os sentidos
dilacerados de quereres amordaçados.
O frio entra e tu sofres a irrelevância de o sentir,
não é importante o calor resfriado do corpo,
nem as lágrimas petrificadas dos olhos inundados.
Sentes a alegria dos ruídos que denunciam
uma chegada, mas não esqueces, porém,
o ser que chora à chuva e em silêncio.
O que fazes alucinada?
Fechas os olhos e deixas cair…
na folha, no chão, no vento,
um sentir desesperado expresso mortificadamente
e um querer, um desejo que parece não chegar!

Nada importa e tu só imploras o regresso
dos sorrisos, a paz na alma e o lar quente!

(Autor da fotografia: Ricardo Costa)