sábado, 29 de setembro de 2007

Não quero mais maçãs

Às vezes, há uma maça
que envenena a alma
e rouba a inspiração…
E no âmago corre
um bálsamo decadente
carente… das veias de poeta!
E caminho sem chão
sobre fendas, insistíeis, que se abrem…
Que me fazem cair!
Quando me levanto…
(…)

…há tantas maças nesta macieira!


terça-feira, 25 de setembro de 2007

No teu barco de brincar

"Será que ainda vai???" de Luís CristinoRasgaste a multidão impaciente de estranha serenidade,
mares desassossegados e fictícias ondas
e fizeste-te, decidido capitão,
presente como um desconhecido.
Ficaste sentado próximo da negra rocha
que sentia minha,
e lançaste-me um olhar de brilho ameaçador.
Sorri tão envergonhada quanto tu
(apesar de ti criança!)
e quis roubar-te a atenção.
Viraste o rosto de pele morena suave
num gesto altivo e dominante,
mas deixaste-me ver (sei que sim!)
um sorriso teu como resposta.
Senti ambição… vontade de abraçar
esse teu corpo tão pequeno e difícil de alcançar,
como se de conhecidos o dia escrevesse.
E navegar… navegar no teu mar de sonhos
e no teu barco de brincar!
Mas não nos tocamos; não nos aproximamos…
nós nem sequer falamos!
Caminhei, então, na minha praia
enquanto te via recolher a amarra e preparar a partida.
Sopraram os ventos fortes,
levantaste as velas da fantasia…
e incompreensivelmente, tudo ficou deserto…
não havia ninguém.
Olhei-te com tristeza e senti as mãos atadas.
Não pude fazer nada para além de
acolher o teu sorriso e retribuir o teu adeus.

Tu nem o teu nome me disseste…
…e foste embora!

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Agradeço o que me ensinas, Flor de Lótus

fotografia de Vanda LacãoO dia acordou com cores de Outono
completo de belezas banais! (Tão belas e desprezadas!)
Que eu e tu vemos… (e poucos mais!)
Entre as roupagens das árvores desnudas,
encontraste-me tu…
sem chão, origami sem cor que a criança esqueceu!
Pegaste-me com cuidado
e admiraste a arte de papel.
Limpaste o sujo e pintaste o branco
com as tintas invisíveis do teu pincel!
Disseste: “És especial!”;
e eu, sem vida, incrédula,
pousada em tuas mãos, aí fiquei.
Deliciei-me de ti e da perfeição que me ofereceste!
Obrigada por todo o carinho!!!
Incapaz de ver, fiquei no beiral da janela,
sentindo como que por ousadia,
a ternura que dedicas às aves feridas,
às plantas de um jardim…
e o tempo, do teu tempo tão limitado
que me ofereces a mim!
Alimentei-me de poesias que te encantam,
e sem mexer, tudo senti!
E de mansinho, a noite espreitou à tua vidraça
trazendo no sopro da brisa, um feitiço do Oriente!
E no pequeno pássaro de papel,
bateu um delicado coração!
Há essência agora! Obrigada!
Olhei para ti… adormeceste entre tantos afazeres!
És tão meiga, tão harmoniosa!!!
Não te queria deixar, mas voei…
porém, numa árvore do teu jardim,
construí o meu ninho e voo de quando em vez
até à tua janela para cantar-te de mim.
Mas tenho medo, apesar de tudo,
de brincar aos poetas e falar de poesia
à mestre das palavras!
Mas arrisco sempre,
pois consigo sentir o teu sopro em cada voo
a as tuas mãos em cada queda!
E nesse cantinho que me deste,
leio os escritos da tua pena
que derramam sobre o papel sabedorias
que me dão alma, fazem bater o meu coração
e me lançam, novamente, para voar!
Assim, um passarinho descobre,
que há uma flor a querer nascer
por baixo de cada pedra deste chão!

Desculpa! Mas sem querer,
descobri um segredo teu:
numa das noites, quando fui para ti cantar,
vi-te chegar pela porta das traseiras,
e vi… desculpa, mas eu vi!
Vi que no rasto de cada passo teu,
era atirada para o céu uma estrela,
e que em cada pestanejar,
a lua brilhava mais!
(Escondes mistérios tão belos!)
Foi então que entendi,
que tudo em ti é mágico!
Nessa noite, vi-te acariciar a Natureza,
beijar os animais…
adormecer junto à lareira e…
fascinante!
Magia das magias…
com uma delicadeza infinita,
pouco a pouco,
o teu corpo transformou-se
numa bela e deslumbrante
Flor de Lótus!!!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Os dois falam em silêncio

"Fake Plastic Love - III" de Maria FloresEla espera, deitada… de luz acesa
as palavras para o fazer ouvir.
Porém, nada surge e chora amargurada
sobre a velha almofada já molhada.

Ele espera, sentado à janela do seu quarto
que após o estalido da porta,
entre ela, como sempre faz,
sem autorização pedir.

Ambos esperam, os olhares recatados
sem palavras, mas mil dizeres.

Ele quer que ela lhe roube o cigarro:
- “Promete não fumar!”;
- “Só se…” – tenta dizer,
se aquele beijo ansiado
não interrompesse a sua deixa.

Ela quer a sua ternura e o sussurro ao ouvido
de um sem número de promessas.
Ele quer o seu abraço e a retribuição
do murmurinho junto ao ouvido dela.

Nasce sincronicamente um silêncio
que um sorriso revelador quebra.
Nem todas as palavras de amor juntas
diriam mais do que aquele gesto.

Mas num espasmo repentino,
os dois acordam em dimensões diferentes.
Os dois lamentam, os instantes erróneos
que invadem as suas vidas e os fazem chorar.
E há num sorriso real,
no contacto de um verdadeiro beijo...
...o perdoar!

Aqueles loucos apaixonados amam-se,
mas não o sabem revelar em todas as expressões,
não conseguem entender
que o maior sentimento bate no peito…
e que não se vê!

sábado, 8 de setembro de 2007

Cativa

"PARADISE... not for me" de Paulo Madeira

Vim dizer-te, a ti, que cheiras liberdade,
que num mundo invisível,
algures no meio do nada me encontro eu...
prisioneira de uma passividade infernal que me condena
a uma tortuosa e ansiosa espera de voos ascendentes!
Sinto-me ser sugada por areias esfomeadas,
e a aflição de um querer sair de um poço sem fundo!
Sinto o romper dos dedos que chega ao osso ,
numa tentativa desesperada de trepar até à luz.
Vejo o sangue derramado descendo pelos meus braços
e sinto a terrível desesperança de unhas quebradas.
Não vejo nada… aos meus olhos, a escuridão é tudo!
Sinto o meu corpo imundo,
de sangue derramado,
de lágrimas que de sujo a terra registou,
de tatuagens de feridas, jamais, cicatrizadas.
Sinto a alma conspurcada
de medos que se entranharam,
de vontades inúteis e impossíveis!
Não há escadas neste vórtice,
nem corda de salvação…
não há nada, para além de uma dor incomparável.
Nem estaca que invada o meu corpo e perfure o meu coração…
…não há...

...não há salvação!!!


Há raiva… muita raiva! Ódio e maldizeres!

sábado, 1 de setembro de 2007

Um rasto de…

"Perdoa-me pois sou pecado" de Helder Mandes

Sou traição de leitura de bela inocência,
pecado de pensamentos de poesia,
espuma de banheira onde emerso,
toque provocante que as águas revelam.
Sou sedução que te desafia
numa aventura arriscada e sem pudor,
roupa molhada pela chuva de Verão,
que desenha a escultura de um corpo…

…e te rouba o sono! Te alicia!


Sou Inferno e desassossego da tua alma,
raiva que te desperta e te obriga a amar!
Sou musa de mentes de poetas,
modelo desejada em telas de pintor!
Sou tempestade no teu deserto quieto,
fúria que te dilata as veias e te faz gritar!
Sou o teu desejo mais amado e repulsivo,
que queres ter e mandar embora…

Sou corpo despido que te prende em mim,
olhar abrasado que te aprisiona
num quarto de paredes invisíveis.
Sou uma condenação perpétua!
Bloqueio palavras e algemo as vozes…
E numa ordem de feitiço,
todos os gritos são calados!

Choro, então, lágrimas de fel
que deixam no rosto um rasto de…
…pecado!