segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Diagnóstico


Rio até cair para o lado

embriagada pelas águas imparáveis

que se soltam do olhar.

Há loucura na dilatação dos poros,

e histeria aprisionada na epiderme.

Numa rábia intensa, o pensamento

contrai o corpo até ao sufoco

que dilacera. Bate a intenção de rebentar.

E desvanece!

Há um delírio que me deixa lúcida.

Dolorosamente lúcida.

Crente no pensamento que me avassala

vejo a verdade cortante,

uma certeza que me aponta:

TU!


Eu… eu sou um veneno sem cura,

um fenómeno estranho que se deve esconder.

O meu diagnóstico aconselha: isolamento!

"Foi detectada uma enfermidade não contagiosa,

mas que fere, rasga, destrói…

extingue a beleza íntima de quem se considerar imune."

Foge! É imperativo… eu faço o mesmo!


 
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(Imagem da autoria de: António Louro)


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Meditar


Caminhei pelo tempo e parei

anestesiada pelo perfume que poderia descrever.

Mas não quero!


Tudo permanece lá, sem estar.


Nas ondas agitadas dos cabelos secos ao sol,

vi emoldurado o sorriso imperfeito

e eternizada a gargalhada constrangedora!

O doce de mel que caiu da mãe árvore,

alimentou uma linhagem invulgar

que brilhava ao toque do sentir.


Mas… a ampulheta rodou

e estimulou o caminhar. Inevitável!

Dolorosamente fatal!

Cai incolor, a pérola do olhar,

e o lenço róseo procura no rosto o agasalho…

...incontornavelmente impossível de encontrar.


 
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(Imagem da autoria de: Guilherme Santos)





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A influência do luar


Sei o que acontece.


A atmosfera dessas noites inebria-nos os sentimentos

e a melodia que toca só para nós

impõe à marcha um ritmo alucinadamente ofegante.

O sopro dessas noites, quase cristalizado pelo frio,

invade-nos o corpo e castiga a garganta,

trazendo às papilas gustativas

um bárbaro sabor a sangue.

No peito, às portas da essência,

contempla as garras afiadas do norte

para depois as cravar como estacas no coração,

e exibir a dor que causa no momento em que

paras para respirar e, sem querer, pensas.

No limiar da mágoa entre pensar ou, somente, fugir,

escolhemos a tortura de um frio nocturno

que se acomoda no âmago de

um corpo em busca de ópio.

De volta ao passo intenso, a música continua,

anestesiante, alheia ao pesar que sentimos.



Enfim, o derradeiro passo surge

e a ária parece terminar.

Rendidos, caímos de joelhos no chão

e voltamos o olhar aos céus…

E lá está ela, bela e malévola, a iluminar

o que sentimos, como num palco teatral

um holofote ilumina uma figura perdida no espaço.



É isto que acontece nessas noites…

…nessas noites enigmáticas de luar!


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(Imagem de autoria desconhecido)