terça-feira, 26 de julho de 2011

Apenas palavras?


As palavras dizem aquilo que dizem
e ainda o que não dizem.
E entre jogos de dizeres,
às vezes, ouve-se aquilo que não foi dito
e lê-se aquilo que não estava escrito.
Tantas são as vezes que o sentido
das palavras se dissolve entre
a partida e a chegada do mesmo som
e o (des)entendimento provocado
é tão real como ilusão
porque tudo varia, depende em muito,
ou em tudo, do consciente de cada um.
Não fossem as palavras, inquestionavelmente, volúveis
entre o complexo processo decorrido entre
quem diz, quem escreve, quem ouve ou quem lê,
e tudo seria efectivamente…

…mais silencioso!

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(Imagem da autoria de: Nuno Belo)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Tic... tac...

Um… dois… três… quatro… cinco…
é uma constante sucessão ritmada
repetidamente ordenada
que nos faz perder o fôlego e
começar de novo…

Um… dois… três… quatro… cinco…
e nas discrepâncias entre os
medos aprisionados tu questionas
o olhar que te rasga a pele
se passeia em ti e te lê.
E tu, calmamente, recomeças…

Um… dois… três… quatro… cinco…
os escritos timbrados no sentimento
tatuam a pele a tempo e fogo
e um passado grave, acorda
num presente pacifico que te clareia…

Um… dois… três… quatro… cinco…
hoje a contagem é mais suave,
mas… o tempo acabou!

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(imagem da autoria de: François Benveniste)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Dias nocturnos

 
Lá na rua onde eu moro,

há uma viela onde a noite nunca dorme.

Calcorreio a calçada

com destino ao bar anónimo

e na pausa de um trago clandestino

fumo o meu ópio com um sorriso [contrafeito]

emoldurado pelo batom vermelho

encontrado no fundo da gaveta.

O murmúrio ambiente desequilibra-me o ego,

e apodera-se do meu corpo

uma sensação agorafóbica que me convida a sair.


O compasso do salto alto

afasta os gatos do caminhos e

atrai os pensamentos desonestos

[dos vadios daquela viela].

Evadida, dobro a esquina

e paro, mais adiante, sob a luz do luar.

Observo a sombra [que nasce em mim],

prisioneira aos meus dias de lua

e desisto de caminhar, porque…


…lá na rua onde eu moro,

há uma viela onde a noite nunca dorme.


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(Imagem da autoria de: Carlos Medeiros)

segunda-feira, 14 de março de 2011

2 em mim

Hoje, sem querer… ouvi-me!

Percebi [sem saber exactamente

o grau de sensatez] que não posso

deixar que a razão seja humilhada

pelos sentimentos que me maltratam.



Preciso de ser inteira,

não para ser grande, como grande foi o poeta,

mas para crescer até à altura que posso ter.



Se as analogias expiradas e

as ironias sentidas me asfixiam.

Para quê nutri-las?

[Independentemente das fontes que as ascendem!]



O centímetro do outro

tem a dimensão que lhe dou,

mas… um milímetro é tão grande

neste meu mundo invertido.



Rrrr!!! Oh!, não consigo!

[Afinal… não há sensatez que

à insanidade esteja imune!]

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(Imagem da autoria de: ABrito)

quinta-feira, 10 de março de 2011

A minha boneca


"Quando for grande, quero ser pequena!"

Disse, certa vez, despachada, naquela aula de francês.

…soubesse eu, a dimensão daquela verdade!



Desculpa Boneca, eu sei que te deixei

no baú dos brinquedos, e

por achar que tinha crescido,

nunca mais te falei.

Devia ter entendido que por mais

distantes que os nossos tamanhos ficassem,

o meu abraço, ajustar-se-ia sempre ao teu corpo

e os teus ouvidos, à minha vontade de falar.



Sabes Boneca, achei que

quando aquela altura de gente crescida

coubesse em mim, eu não teria medo…

Mas é escuro aqui,

os fantasmas falam comigo a toda a hora,

e eu tenho… tenho muito medo…



Boneca… preciso de ti!

 
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(Imagem da autoria de: André Navega)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Fragilidade


São complexos os pensamentos

desta alma que vive os seus dias

numa longa Primavera nocturna.

São mitológicas, as melodias

dos pássaros que lhe cantaram

outrora à janela.

São rasantes os voos das aves

que lhe habitam a essência.



E num vertiginoso lançamento

atira-se da falésia

com os seus braços abertos

e de penas despidos.

Perde a pele com o vento

que dela se apropriou pelos poros.



No final da livre queda

fica na alma o que sobrevive,

e o corpo decadente,

e quase insano, ainda,

laça a tempo a essência

e prende-a por um fio!

 
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(Imagem da autoria de: ABrito)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Hoje, para ti… e para ele!

O cheiro da manhã daquele lugar
[porque aquele lugar é diferente
de todos os outros lugares]

veio afagar-me o nariz e acordar-me
para os dias solarengos do eirado.
Desci da cama como quem
pisa um chão muito longe do seu pé
e numa imensa corrida [assim me parecia!]
atravessei a eira colorida pelas flores do canteiro.
Na minha mão ia a boneca
inventada com a fralda quase branca
que me fazia voar entre os sonhos.
Como tua "salagata", procurava a minha toca
entre os mimos teus e os dele…
nos lençóis que eram vossos,
e a ternura embalava-me noutras quimeras.

Brincava contigo e com ele,
os caracóis dele, eram o meu escorrega
e as tuas mãos a certeza de uma queda segura.
Nesse jardim, havia sempre calor… eu lembro-me!


Mais tarde, o sol entrou pela janela e
num beijo quente acordou-me novamente…
…mas hoje… bem!, hoje a "salagata" não tinha toca!
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(Imagem da autoria de: J.Pedro Martins)