quinta-feira, 24 de março de 2011

Dias nocturnos

 
Lá na rua onde eu moro,

há uma viela onde a noite nunca dorme.

Calcorreio a calçada

com destino ao bar anónimo

e na pausa de um trago clandestino

fumo o meu ópio com um sorriso [contrafeito]

emoldurado pelo batom vermelho

encontrado no fundo da gaveta.

O murmúrio ambiente desequilibra-me o ego,

e apodera-se do meu corpo

uma sensação agorafóbica que me convida a sair.


O compasso do salto alto

afasta os gatos do caminhos e

atrai os pensamentos desonestos

[dos vadios daquela viela].

Evadida, dobro a esquina

e paro, mais adiante, sob a luz do luar.

Observo a sombra [que nasce em mim],

prisioneira aos meus dias de lua

e desisto de caminhar, porque…


…lá na rua onde eu moro,

há uma viela onde a noite nunca dorme.


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(Imagem da autoria de: Carlos Medeiros)

segunda-feira, 14 de março de 2011

2 em mim

Hoje, sem querer… ouvi-me!

Percebi [sem saber exactamente

o grau de sensatez] que não posso

deixar que a razão seja humilhada

pelos sentimentos que me maltratam.



Preciso de ser inteira,

não para ser grande, como grande foi o poeta,

mas para crescer até à altura que posso ter.



Se as analogias expiradas e

as ironias sentidas me asfixiam.

Para quê nutri-las?

[Independentemente das fontes que as ascendem!]



O centímetro do outro

tem a dimensão que lhe dou,

mas… um milímetro é tão grande

neste meu mundo invertido.



Rrrr!!! Oh!, não consigo!

[Afinal… não há sensatez que

à insanidade esteja imune!]

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(Imagem da autoria de: ABrito)

quinta-feira, 10 de março de 2011

A minha boneca


"Quando for grande, quero ser pequena!"

Disse, certa vez, despachada, naquela aula de francês.

…soubesse eu, a dimensão daquela verdade!



Desculpa Boneca, eu sei que te deixei

no baú dos brinquedos, e

por achar que tinha crescido,

nunca mais te falei.

Devia ter entendido que por mais

distantes que os nossos tamanhos ficassem,

o meu abraço, ajustar-se-ia sempre ao teu corpo

e os teus ouvidos, à minha vontade de falar.



Sabes Boneca, achei que

quando aquela altura de gente crescida

coubesse em mim, eu não teria medo…

Mas é escuro aqui,

os fantasmas falam comigo a toda a hora,

e eu tenho… tenho muito medo…



Boneca… preciso de ti!

 
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(Imagem da autoria de: André Navega)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Fragilidade


São complexos os pensamentos

desta alma que vive os seus dias

numa longa Primavera nocturna.

São mitológicas, as melodias

dos pássaros que lhe cantaram

outrora à janela.

São rasantes os voos das aves

que lhe habitam a essência.



E num vertiginoso lançamento

atira-se da falésia

com os seus braços abertos

e de penas despidos.

Perde a pele com o vento

que dela se apropriou pelos poros.



No final da livre queda

fica na alma o que sobrevive,

e o corpo decadente,

e quase insano, ainda,

laça a tempo a essência

e prende-a por um fio!

 
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(Imagem da autoria de: ABrito)