quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Senta-te… eu conto-te como era!

"Balanço de criança..." fotografia de Dulce Carvalho


Na lareira havia fogo
sem lenha e no ar está ainda,
o cheiro daquele lugar.
No ombro, as gargalhadas
perdidas de crianças
que brincam no passado!
Havia no cantar da cigarra
a alegria de viver
e o empenho da formiga.
O porão muitas vezes vazio
mas cheio de realidades
que tu nunca entenderás.
A colcha de palhas aquecia
os corpos pequeninos que sorriam
sem saber do mal que lá fora morava.
O chão de cimento frio
e a parede húmida nunca
gelaram os corações que
habitavam aquele cais.
E todos os lugares de hoje,
diferentes dos de amanhã
nasciam nas manhãs de chuva
plenos de sol.
Todos os jardins tinham
belezas perfumadas apesar do
manto de orvalho que as cobria de noite.
Eu posso até querer falar-te
dos mistérios da minha terra,
mas no peito batem histórias
que não se conseguem ensinar a ninguém…
não se contam, nem se escrevem…
…sentem-se apenas!

O beijo da manhã e ao cair da noite…
oh! ritual mágico que tanto venero…
cuido-te e estimo-te como milagre
concebido em comunhão de todos os deuses!
Havia o sorriso inocente
que escondia a traquinice de criança…
o vidro partido pela bola
e as quedas das aventuras sobre rodas!
Oh tempo… permite-me sempre lembrar
as ternuras que um Amor de verdade ensina,
pois não haverá tinta escrita em papel
que me permitam, jamais, (re)aprender o que aprendi!
As casinhas feitas em madeira ou cartão
e nosso rio… a água do tanque!
As paredes da nossa mansão azul
com estrelas amarelas e janelas de gelatina,
chave de pensar…
O gato ora preto ora siamês,
dormia na nossa cama que a noite assombrava
de alicates papões… comedores de bracinhos de crianças!
Sobre a fortaleza brilhava
a nossa estrela de madeira de aconchego pintada…
Por baixo, a adega quase nunca pisada…
…lá moravam fantasmas
que o medo não deixava incomodar.
Falo-te de mim, de nós…
assim a fingir, a brincar
e te canto o meu coração
e o carinho que incompreendido
lá habita e faz-se alto…
alto morar, agir, sentir, pensar!
E por tua culpa, tempo maravilha
sofro hoje de síndrome de Peter Pan
e danço na suavidade do vento,
e adormeço nas ondas do mar.
E sou saudade. E ternura.
E paz. E medo.
Sou (in)compreensão!
A fome, o chorar, o não ter lugar para deitar
tornou forte a alma
e manteve a gaveta fechada!
As cortinas improvisadas
e a cozinha de cor branca pintada,
foram garra de caminhar, foram força de subir!
O caniche que não podia ser escovado
(só a Natureza não se pagava naquele lar!)
e o rafeiro que defendia
o dono com imensa força de amar
faziam-me sentir…


…eu sentia-me em casa!!!