O negrume evadiu os céus!Subo pela janela, deito-me no telhado…
Olho…
contemplo a carência de estrelas que aclaram o meu céu.
Sinto… sinto um zéfiro aprazível no meu corpo quase nu.
Ouço… ouço a engenhoca de chapa que aclama ao fundo
um chamado incompreensível de gentes estranhas.
Ouço ainda, o ameno agitar de árvores extasiadas
que falam entre si uma linguagem que só à Essência pertence…
Sensibilidade…
arrebata-me de ensejo uma liberdade fictícia
e uma esguia sensação de ventura.
Mas no impulso… tudo muda!
A geringonça quebra o murmuro natural…
Silêncio!
As árvores entram num mutismo profundo,
a aragem cessa no meu corpo.
Olho o céu e não vejo nada!
Não há nuvens, estrelas ou lua…
não há brisa acolhedora
ou falsa liberdade mesmo que passageira.
Não há nada para além de um vazio, estranhamente, abismal…
Algo que me consome e me rouba de mim…
A noite ficou sombria e um medo apoderou-se os meus sentimentos.
Fujo…
mas quando olho para trás não me mexi.
Vejo-me então deitada
olhando o céu longínquo com um sorriso onírico.
Quero agarrá-la… pedir-lhe que venha comigo…
…que não me abandone!
“Não me deixes fugir sozinha!”
Mas… ela tem demasiada coragem para se levantar,
eu… demasiado medo para ficar.
Sinto aquele sorriso passado
de um toque de mãos que se separa;
uma força que me faz caminhar…
…para trás.
Olho para ti e choro!
Recordo-te…
vejo os teus olhos olharem
e um sorriso repreendedor que me chama…
“Tonta!”
Mas as nossas mãos já não se tocavam,
os nossos olhos já não se viam…
…eu já não sentia o calor do teu corpo.
Desde então… caminho sozinha!